As mudanças no corpo das meninas

Por Roberto Cooper.

A puberdade é um evento fisiológico (normal) do processo de maturação sexual que começa com a ativação de hormônios (eixo hipotálamo-hipófise-gônadas) e culmina com a capacidade reprodutiva . É uma fase de mudanças dinâmicas, não só no corpo, como também no intelecto e emoções. Nas meninas, uma das primeiras mudanças corporais é o desenvolvimento da mama. De um modo geral, em torno de dois anos, dois anos e meio, após o início das alterações do peito, a menina menstrua. Esse prazo não é rígido e menstruar um pouco antes ou depois é perfeitamente normal.

A idade da primeira menstruação varia em função de fatores genéticos e ambientais. No Brasil, hoje, a idade média da primeira menstruação está em torno de 12,2 anos + ou – 1,2 anos. Aos 15 anos, 95% das meninas terão menstruado. O que me motivou a escrever este post não foram os aspectos hormonais da primeira menstruação, mas sim o fato de que um evento da natureza humana está sendo, progressivamente medicalizado e, até certo ponto, tendo aspectos negativos ou patológicos reforçados. As revistas falam de cólicas e as formas de evitá-las. Algumas matérias focam na TPM e dão dicas de como diminui-la. De exercícios a alimentos são apresentados como soluções ou paliativos para “aqueles dias infernais”.

A menstruação não é uma doença. Claro que algumas pessoas apresentam menstruações com graus variáveis e distintos de desconfortos. No entanto, estes são a exceção. A grande maioria das mulheres menstrua sem ter sintomas relevantes. Divulgar e reforçar os aspectos negativos e excepcionais da menstruação é um desserviço às mulheres. Principalmente para as jovens que, tendo acesso a essa informação criam uma ideia distorcida e equivocada do que seja a menstruação. Assim, ao vir a primeira menstruação seus sentidos estarão aguçados para o desvio da normalidade e não para a celebração de um momento muito rico e emocionante na vida de uma mulher: o momento onde ela se torna capaz de gerar uma nova vida, dentro do seu próprio corpo.

Claro que os primeiros ciclos frequentemente são irregulares, ora atrasando, ora adiantado. Claro que existe um aprendizado a respeito dos cuidados higiênicos a serem tomados. Mas, daí a se transformar uma coisa normal em “dias infernais” ou “aqueles dias”, vai uma grande diferença. Quando a filha de vocês começar a mudar o aspecto da mama, é o momento para falar mais sobre o corpo da mulher, suas mudanças, o  objetivo destas mudanças (procriar). É a hora onde a  mãe pode orientar a filha a respeito de como se preparar para a primeira menstruação e tentar entender temores ou fantasias que a filha possa ter a respeito. Algumas meninas morrem de medo de serem surpreendidas por um sangramento inesperado e o “vexame” que isso poderia representar. Além de tranquilizar suas filhas, pensem em estratégias práticas que possam ajudá-las. Já soube de mães que, junto com as filhas, montaram “kits” para esse primeiro momento. Só o fato de ter um kit na bolsa ou mochila deu a essas meninas uma segurança muito grande. Não há receita de bolo. Cada menina é única, cada família, distinta. O que sempre é muito bom e importante é a conversa franca e respeitosa de pais com seus filhos. Não rir dos temores, não menosprezar os “fantasmas”. Ouvir atentamente, procurando através de informação correta, ajudar os filhos a compreenderem um pouco melhor esse momento conturbado de mudanças. Muitas vezes, se colocar na história, lembrando a sua própria adolescência pode ajudar a aproximar pais e filhos. Estes, frequentemente, ficam alegremente surpresos ao descobrirem que suas inseguranças já foram as dos seus pais!

Finalmente, queria dizer que a primeira menstruação é um assunto para ser discutido com os filhos homens também. Consideramos que os assuntos do corpo da mulher pertencem somente às mulheres e, com isto, deixamos os meninos sozinhos com suas ideias. Muitas delas equivocadas e que podem ser a base de preconceitos difíceis de serem superados. Meninos frequentemente associam sangue a algo violento ou perigoso. Também podem associar a algo sujo ou “impuro”. Pensamentos assim não ajudarão os filhos homens a olharem para as mulheres de uma forma mais tranquila e menos preconceituosa.

Uma conversa importante para se ter com filhas e filhos que estão ingressando na puberdade é a respeito de gravidez, contracepção e doenças sexualmente transmissíveis. Essas questões são fundamentais e adolescentes tendem a evitar essas conversas porque “já sabem” e porque “isso não vai acontecer comigo”. Não se sinto atemorizados por essas reações e conversem franca e carinhosamente sobre esses assuntos com seus filhos.

Chego ao final do post e, de propósito, não usei o nome que médicos dão à primeira menstruação. Fiz isso porque gostaria que todos nós deixássemos de tratar como coisa médica as coisas que fazem parte da vida. Quando corremos, ficamos ofegantes, isso é da vida. Se, além de ofegantes, estivermos com alguma falta de ar (ainda que temporária), dirão os médicos que estamos com dispneia. Usar a linguagem médica para as coisas da vida é um primeiro passo para acharmos que estas são “doenças”  e precisam de “tratamento”.

A título de informação, os nomes médicos usados na puberdade das meninas são: – telarca: quando o peito começa a mudar

- pubarca: quando pêlos começam a aparecer debaixo do braço e na região pubiana

- menarca: a primeira menstruação.

Agora esqueçam esses nomes e curtam a entrada dos filhos na puberdade. A primeira menstruação deve ser celebrada como um momento muito bonito na vida das meninas. Se tiverem comentários, dúvidas ou sugestões, por favor enviem.

Conheça nossa página no Instagram @4insiders 

Envie seus comentários e sugestões para contato@4insiders.com.br

Blog Dr. Roberto Cooper  http://robertocooper.com/

 

 

 

Index

 

 

 

 

 

 

Editorial

Quando não há prazos, nem amarras, tampouco fórmulas, ficamos abertos a novas idéias. Das boas. Do não compromisso com o factual, o temporal e o noticioso, nasceu a vontade de criar um espaço para livres pensadores, sem censura e com estilo de sobra. Cada um vem aqui e diz o que quer, lembranças de outrora ou assuntos de agora. Vale o exercício de imaginar o surpreendente para desenhar o futuro. A receita é simples: escrever para aliviar, ler para gostar e navegar para se divertir. A turma é boa, insider que não veio ao mundo à toa. As histórias são ótimas, a ordem é ser leve acima de tudo ou nada feito.

Os Insiders